Íntegra da homília na missa da posse.
Íntegra da homilia de posse de
Dom Sérgio Krzywy, como Bispo da Diocese de Araçatuba.
(domingo,
29 de agosto de 2004)
Excelências
Reverendíssimas, Dom José Carlos Castanho de Almeida,
primeiro Bispo desta diocese de Araçatuba, Dom Maurício
Grotto de Camargo, que cumpre seu serviço nesta diocese como
Administrador Apostólico, Dom Agostinho Marochi, Bispo Emérito
de Prudente, Dom Luiz Antonio Guedes, Bispo de Bauru, Dom Orani João
Tempesta, Bispo de São José do Rio Preto, Dom Irineu Danelon,
Bispo de Lins, Dom Demétrio Valentini, Bispo de Jales, Dom Izidoro
Kosinski, Bispo da vizinha diocese de Três Lagoas e o Dom Diógenes,
Bispo de Franca. Excelentíssimo Senhor Dr. Jorge Maluly Neto,
Prefeito aqui de Araçatuba, em sua pessoa cumprimento todas as
autoridades – civis e militares – os que nos visitam hoje,
que vieram de diferentes lugares, da parte do clero, religiosos, religiosas,
seminaristas, mesmo autoridades, agentes de pastoral, das comunidades,
comunidade Fé e Luz que estou vendo aqui, querida diocese de
Araçatuba, Vigário Geral, Padre Charles, os presbíteros
do presbitério da diocese de Araçatuba, colégio
de consultores diocesanos, diáconos, religiosos, religiosas,
seminaristas, cristãos leigos, leigas desta diocese, agentes
de pastoral, todas as pastorais, organismos diocesanos, movimentos,
paróquias, comunidades eclesiais de base, catequistas, a quem
eu peço uma salva de palmas – hoje é dia do catequista
– os irmãos e irmãs que nos acompanham também
através da emissora de rádio, especialmente os doentes:
Na
distante cidade de Palmeira, no Estado do Paraná, e com essa
frase eu saúdo meus familiares, minha mãe, onde nasci
e vivi minha infância e parte de minha juventude, há uns
bons anos atrás, quando eu era pequeno, nas ocasiões em
que mamãe deixava eu brincar na rua, de carrinho, com o arquinho
ou soltar pipa ou jogar bola com os coleguinhas, às vezes nós,
alertados pelas marteladas do ferreiro, parávamos em frente à
ferraria, lembra-se, Agostinho? A ferraria era o lugar onde se faziam
as carroças, empregadas no transporte de pessoas e de todo tipo
de gêneros necessários para a vida do povo; empregadas
pelos colonos poloneses, italianos, russos, alemães e por um
bom número dos que viviam na zona rural do município de
Palmeira. Parávamos em frente da ferraria para ver o ferreiro
trabalhar o ferro no fogo, com o auxílio da tenaz, do martelo,
da bigorna e do fole. Com o fole, o ferreiro controlava o envio do ar,
o sopro necessário para avivar o fogo e com a tenaz ele movia
o carvão junto ao ferro que ia incandescendo, até tornar-se
inteiramente abrasado, um ferro abrasado, tornava-se uma brasa entre
as brasas, todas perpassadas por uma chama quase invisível do
fogo, impulsionada pelo vento vindo do fole. Nossos inocentes olhinhos
de crianças brilhavam ao contemplar aquele minúsculo espetáculo
que acendia ainda mais a nossa curiosidade, quando o ferreiro, com a
tenaz, tirava do fogo o ferro abrasado, incandecido e o depositava sobre
a bigorna para com a pequena marreta, dar-lhe os contornos que o tornaria
útil para a confecção da carroça.
Essa imagem da minha infância gravou-se no fundo do meu coração
e eu a relacionei, mais tarde, em meu ministério, à minha
vida espiritual, quando meditava a Palavra de Deus como os textos de
Moisés diante da sarça ardente e o de Elias, no sacrifício
oferecido a Javé. A partir do dia 26 de maio, ao ser nomeado
Bispo dessa vacante diocese de Araçatuba, pelo Papa João
Paulo II, a imagem do minúsculo espetáculo que o ferreiro
nos proporcionava na infância, voltou-me forte à lembrança.
Senti-me como este ferro do ferreiro, tomado cuidadosamente pelas mãos
do Pai, aproximado do amor abrasado de seu Filho, Jesus Cristo, e avivado
por dentro pelo sopro inefável do Espírito. Uma chama
invisível, indizível e nova do amor de Deus, Uno e Trino,
passou a arder com força crescente em meu coração,
em todo o meu ser, quando com plena liberdade, dei o meu sim à
nomeação do Santo Padre. Senti que era convidado a morrer
mais uma vez para mais uma vez nascer, pois que assim é a nossa
vida cristã. E, imediatamente fui percebendo essa chama abrasadora
do amor de Deus espalhar-se com misteriosa rapidez. Uma multidão
de brasas vivas veio somar-se ao meu sim, num canto ardente de oração
e júbilo, em ação de graças ao nosso Deus
e Senhor, fonte transbordante do Amor Eterno. Vocês sabem muito
bem quem são essas brasas. Na raiz do nosso ser, queridos irmãos,
queridas irmãs, no sacrário vivo da nossa consciência,
como se expressa o Concilio Vaticano II, Deus plantou a possibilidade
infinita da vivência do seu amor em nós, do seu mistério
inefável. Somos chamados a realizar a experiência mística
fundante de Deus em nós, que sustenta todo nosso ser. Deus nos
reserva a vivência mística da sua presença.
Na verdade, o Senhor veio preparando não só o meu coração,
mas o coração de cada um de nós para esse encontro
de solene ação de graças e que se constitui no
marco de uma etapa nova em nossa vida, na vida de cada um de nós.
E assim acontece conosco pela ação do Senhor como Ele
o fez com os discípulos de Emaús, marcados para sempre
pela Ressurreição do Senhor. Não ardia o nosso
coração? Eu pergunto a vocês: não ardia o
nosso coração enquanto buscávamos compreender os
novos fatos que aconteciam entre nós? Não ardia o coração
de vocês? Ardia ou não ardia?
Primeiro, o Senhor nos visitou, aqueceu e preparou os nossos corações,
hoje ele confirma a confluência da nossa história, da nossa
vida, dos nossos corações com o seu amor eterno e compassivo
na Eucaristia que celebramos.
Em meu brasão episcopal, coloquei a palmeira, que é um
dos símbolos bíblicos riquíssimos de significado:
representa uma ligação entre o céu e a terra; ramos
de palmeiras são símbolos muito difundidos da vitória,
alegria, paz. Suas folhas sempre verdes são ainda um símbolo
da vida eterna e da ressurreição. O símbolo da
árvore felicita a espiritualidade dos justos e do discípulo
fiel. O justo é como árvore plantada junto da água
corrente, canta o salmista no Salmo 1, abrindo todo o saltério
na Bíblia. O justo crescerá como a palmeira, canta outra
vez o salmista, no Salmo 91, 13.
O discípulo fiel é o ramo que produz fruto, porque permanece
na videira. A simbólica bíblica relaciona árvore
à cruz de Cristo, caminho, verdade e vida. A cruz do Senhor é
o símbolo que encerra toda realidade da nossa salvação.
Ele nos restituiu o paraíso. É a verdadeira árvore
da vida e batizou-nos no mistério inefável da Trindade,
manancial do amor eterno, princípio e fim de toda espiritualidade.
A árvore inspira a atitude interior, a mística. Todo batizado
é chamado a crescer como discípulo, enraizado nas graças
e no amor do Senhor e este crescimento, é antes de tudo, uma
responsabilidade pessoal. Cada batizado deve empenhar-se no amadurecimento
pessoal do seu compromisso cristão. Deve deixar-se tomar pelo
Pai, o Filho e o Espírito Santo e abraçar a causa do Amor
com todos os irmãos e irmãs. Por isso, nenhum batizado
pode viver isoladamente o seu batismo, ele precisa da comunidade, pois
ela é o lugar da formação dos discípulos
do Senhor, e onde eles nutrem a sua vida fraterna, onde nós nutrimos
a nossa vida fraterna.
Na comunidade, Deus nos reserva a vivência fraterna de Sua presença.
No meu brasão, no campo vermelho, nós encontramos a Coroa
rodeada de doze estrelas, representando, respectivamente, Maria Santíssima
e os Apóstolos, símbolos da comunidade nascente. A Mãe
de Deus e da Igreja e os doze, são os primeiros contemplativos
do rosto do Senhor, são as testemunhas do Amor, fazendo da Igreja,
a casa e a escola da comunhão, no cultivo da afeição
de um Pai e mais ainda da afeição de uma Mãe. É
uma afeição assim que o Senhor espera de cada pregador
do Evangelho e de cada edificador da Igreja. Na história da Igreja,
todas as vezes em que se buscaram formas mais elevadas de vida no Evangelho,
colocou-se na vida fraterna seu apoio fundamental.
A fecundidade da comunhão que vem de Deus é vivida na
comunidade cristã e nos impulsiona para a transformação
da sociedade.
O barco com a rede simboliza a Igreja em missão no mundo, obedecendo
ao mandato permanente do Senhor: Ide, Ide, Ide.
O azul do mar, lembra a imensidão da messe e a urgente necessidade
de lançar as redes em águas mais profundas para fazer
novos discípulos do Senhor.
Movidos pelo Amor, o dinamismo mais autêntico da missão
da Igreja, que mais dá vida à Igreja é a caridade
e o amor. Os discípulos do Senhor, alegres e ardorosos o encontram
na pessoa humana. É a comunidade que vai celebrar o encontro
com o Senhor, no encontro com os irmãos e, preferencialmente,
nos pequenos, nos fracos, nos pobres, nos sofredores, nos portadores
de necessidades especiais.
O barco com a rede inspira a travessia solidária, convidando-nos
a lembrar com gratidão o passado, a viver com paixão o
presente, a abrir-nos com confiança para o futuro. Deus nos reserva
a vivência solidária de Sua presença.
O cumprimento do mandato Ide, fazei discípulos meus ( Mt 28,19),
só será ardoroso e cheio de frutos se enraizado no Vinde,
que esconde a vivência da intimidade com o Senhor, na obediência,
no espírito de oração, no desapego de nós
mesmos, na renúncia, na caridade para com todos; porque, como
afirmava o Papa Paulo VI, na Evangelii Nuntiandi: “o mundo reclama
evangelizadores que lhe falem de um Deus que eles conheçam e
que lhes seja familiar, como se eles vissem o invisível ”.
Nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja
no Brasil, para o período de 2003/2006, os Bispo s afirmam: “Os
desafios da hora atual são numerosos e complexos. Procurando
a fidelidade à Missão que Cristo confia à Igreja
e a docilidade ao seu Espírito e visando evitar a dispersão
em nossa ação evangelizadora, destacamos os três
âmbitos de ação: a pessoa, a comunidade, a sociedade.
Não são realidades a serem consideradas separadamente,
mas três enfoques interligados, complementares”.
No âmbito da pessoa, o desafio é a construção
da nossa identidade pessoal, identidade que nós encontramos cristalina
na pessoa de Jesus Cristo. No âmbito da comunidade, o desafio
é a fragmentação da vida e a busca de relações
mais humanas e nós encontramos, igualmente de modo cristalino,
na Trindade que Jesus nos faz entrar. E, no âmbito da sociedade,
o desafio para se construir uma sociedade solidária é
o escândalo da exclusão e da violência na sociedade
consumista. E também aqui nós encontramos na comunidade
nascente, o modelo exemplar para a evangelização hoje.
Não é suficiente uma identidade qualquer da pessoa, não
é suficiente qualquer jeito de Igreja, não é suficiente
qualquer jeito de missionar. É necessário recorrer sempre
às fontes. Por isso a solenidade de hoje acontece na Eucaristia.
A liturgia da Palavra nos apresenta na primeira leitura, o caminho da
mansidão que é uma bem-aventurança para encontrar
o amor. Só os mansos encontram o amor. A prática da humildade,
para quem está investido de poder, além do ouvido atento,
para quem deseja a sabedoria. Fala-nos a liturgia de hoje na segunda
leitura: “Vós não vos aproximastes de uma realidade
palpável... mas vós vos aproximastes do monte Sião
e da cidade do Deus vivo”( Hb 12,18 a; 22 a). Não é
do Deus morto, mas é o Deus que traz vida, “ da assembléia
dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus...
de Jesus, mediador da nova aliança” (Hb 12, 23 a; 24 a).
Sim, meus caros irmãos e irmãs, é Jesus Cristo
que nos ensina como participar do banquete no Evangelho de hoje, como
participar da grande festa da vida que prepara o banquete eterno do
Reino. É o dono da festa que vai me qualificar como convidado.
Não sou eu que me qualifico; eu corro o risco de ocupar o lugar
errado. É o Senhor do banquete que nos ensina como preparar o
banquete e quem convidar.
E assim, nós podemos cantar, como nós cantamos já
e vamos cantar agora novamente. Eu peço ao pessoal do canto,
o refrão do salmo responsorial da liturgia de hoje. Podemos ficar
sentados, pois eu ainda vou continuar mais um pedacinho, para terminar
depois. Vamos só cantar o refrão.
“Com carinho preparastes uma mesa para o pobre...” ( povo
cantando).
Para encerrar, quero voltar ao começo: Na distante cidade de
Palmeira, no Estado do Paraná, onde nasci e vivi minha infância
e parte da minha juventude, há uns bons anos atrás, quando
eu era pequeno, nas ocasiões em que mamãe não me
deixava brincar na rua, eu me contentava no quintal de casa, em meio
ao arvoredo, tão bem cuidado pelo papai. Às vezes, eu
ia lá no fundo do quintal e subia num pé de araçá,
aquele do araçá amarelo, gostoso. Eu nunca havia entendido
o por quê daquele pé de araçá em minha casa,
a não ser que era mais um dom de Deus em minha vida. Araçá
tem a ver com Araçatuba. (aplausos).
Hoje, eu compreendo que o Senhor, delicadamente preparava o meu coração
de menino para viver o amor cristão com vocês.
Eu estou refletido na palmeira do meu brasão, trago a minha história,
meu povo, a minha terra, minha experiência cristã e tudo
que ela encerra.
Como discípulo do Senhor, encontro aqui um povo, uma terra, uma
história, uma Igreja a caminho. Eu vim para caminhar com vocês
e quero trilhar com vocês o caminho do amor. Confiemo-nos todos
ao Senhor, através de Nossa Senhora da Conceição
Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, Padroeira da Catedral de Araçatuba
e da Diocese de Araçatuba.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
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