Artigo sobre ZIlda Arns no L´OSSERVATORE ROMANO

O Cardeal Geraldo Majella Agnelo, no veículo de comunicação oficial do Vaticano, o informativo semanal L`Osservatore Romano em portugues, publicou artigo sobre a Dra. Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criançla, vitima do terremoto em Janeiro de 2010 no Haiti.
Leia a íntegra do artigo:

Uma vida doada pela causa das crianças

Naquela noite de 12 de janeiro último, até quase a madrugada, eu acompanhei os primeiros noticiários sobre o tremendo terremoto no Haiti. Senti imensa consternação ao ver aquele heróico povo tão provado e discriminado, amargamente vivendo imensa pobreza, fome e sofrimento. As primeiras notícias de vítimas chegaram pela manhã e entre as primeiras, a morte de Dra. Zilda Arns Neumann. Pensei imediatamente no sinal que Deus nos queria dar sobre o seu desígnio.
A Pastoral da Criança nasceu de uma pequena semente lançada em Florestópolis-pr, na Arquidiocese de Londrina há vinte e sete anos. Agora presente em todos os países da América Latina, vários países da África, em Timor Leste na Ásia. A árvore é bastante frondosa. Em todo o percurso há amor, ardor missionário, alegria de fazer o bem aos mais sofridos, em vista de melhorar a qualidade de vida especialmente da criança. Dra. Zilda já dera tudo de si. O Senhor encontrou-a madura para chamá-la a si. Ela pensava na continuidade após a sua caminhada. Preparou equipes em vários níveis que a pudessem substituir. Senti esperança como uma certeza. Assim acredito também após o acontecido no Haiti. A sua vida e sua morte no campo de batalha será um constante incentivo.
Os brasileiros em toda a parte do país a conheciam e os meios de comunicação com frequência não cessavam de recordar a sua memória. O velório foi armado na sede do Governo do Paraná, Palácio das Araucárias. Imediatamente começaram chegar delegações de toda a parte do Brasil. Coube-me presidir a concelebração eucarística diante do caixão. Éramos cinco bispos e alguns sacerdotes. Os filhos e netos, irmãos e demais familiares participaram com a multidão que rezava e cantava. A multidão em filas acorria e passava diante da defunta. Uma característica deste velório: não havia demonstração de derrota, mas de vitória. Uma vida que foi inteiramente dedicada aos mais sofridos. Muitos políticos visitaram: o Presidente da República, Governadores dos Estados do Paraná e de São Paulo, Ministros de Estado, Senadores, Deputados Federais e Estaduais, Militares, e demais Autoridades civis e militares, Tribunais. Vieram caravanas da Pastoral da Criança de vários Estados.
O projeto da Pastoral da Criança pode ser assim resumido: o presidente da unicef Internacional entregou ao Cardeal Paulo Evaristo Arns instrumentos para confeccionar o soro caseiro indicado para diarréias. A descoberta do soro parece uma inspiração divina. Uma enfermeira de Bangladesh diante de uma peste de diarréia vitimando milhares de crianças, sem ter e sem poder fazer alguma coisa, tinha o que lhe restava ainda: um pouco de açúcar e de sal. Encheu um copo de água e colocou uma colher de sobremesa de açúcar e uma colher de café de sal, misturou bem e deu a beber a uma criança quase morta e, em pouco tempo, foi estancada a diarréia. Estava descoberto o tratamento mais simples para uma situação gravíssima! O Dr. James Grant pediu a D. Paulo para realizar uma experiência em que o soro caseiro e outras ações básicas de saúde pudessem ser levados às comunidades mais carentes, porque a elas somente a Igreja tinha condições de chegar. D. Paulo indicou a mim, no Paraná, para em minha antiga Arquidiocese testar a experiência: sua irmã Dra. Zilda Arns Neumann era médica pediatra e sanitarista, trabalhando na Secretaria Estadual de Saúde.
Assim, em setembro de 1983, iniciamos a montagem do projeto com a colaboração de técnicos da unicef e outros das secretarias estaduais e municipal de Londrina. Inicialmente foi aceito que as próprias mães das crianças deviam ser sujeito da promoção social de sua família. Entre elas foi escolhida uma para cada grupo de dez mães para serem treinadas reconhecida a sua liderança. O objetivo a ser alcançado era a diminuição drástica da mortalidade infantil, em uma comunidade humana onde a estatística era de 131 óbitos em mil nascidos. A alma de todo trabalho é o amor das pessoas que deve ser manifestado entre si. As ações básicas escolhidas: preparação da futura mãe, o aleitamento materno, o acompanhamento mensal do peso, as vacinas, o soro caseiro para reidratação oral.
Dra. Zilda era de família numerosa, onde todos se distinguiram por formação universitária com especialização. Ela escolheu a medicina pediátrica e sanitarista. A formação religiosa é característica de família: dois religiosos sacerdotes, três religiosas e demais profissionais, todos competentes e entusiasmados. Zilda se distinguiu pela preocupação com a formação da família e em particular com as crianças, não só as próprias mas dos familiares e vizinhos.
João Paulo II afirmou que não se pode compreender bem uma pessoa senão a partir do seu interior. Ela escolheu a medicina como missão e enveredou pelos caminhos da saúde pública. Sua prática diária como médica pediatra no Hospital de Crianças César Pernetta em Curitiba e, posteriormente, como diretora de Saúde Materno-Infantil, da Secretaria de Saúde do Paraná, teve como suporte teórico diversas especializações em Universidades e Organismos no Brasil e exterior.
O coração de Dra. Zilda era carregado de doação ao próximo, como missão, com grande sensibilidade no trato com as pessoas, abrindo-se especialmente para a compreensão, paciência e atenção para com o mundo da criança. Ela mesma experimentou dramas familiares: a perda de um recém-nascido, o marido morrendo ao tentar salvar a vida no mar de uma adolescente não parente, posteriormente de uma filha morta em acidente automobilístico deixando um filho aos cuidados da avó Zilda. Tinha grande diálogo com os próprios filhos, consultando-os em momentos especiais da sua vida, mormente quando devia fazer viagens longas. A força de seus antepassados marcaram também sua vida, sempre lembrados com carinho. Lembro que sua vida seguiu sempre um crescendo de entusiasmo e qualificação de sua função. Sua sensibilidade a fez preocupar-se com as crianças em todo o Brasil e no exterior, começando pela América Latina, estendendo-se pela África e em Timor Leste. Posso dizer que sua conversação com a família e amigos dedicava grande espaço à ação do seu trabalho.
A educação das mães por líderes comunitários capacitados revelou-se a melhor forma de combater a maior parte das doenças facilmente preveníveis e a marginalidade das crianças. Após 27 anos, a Pastoral acompanha mais de um 1,9 milhões de gestantes e crianças menores de seis anos e 1,4 milhões de famílias pobres, em 4.063 municípios brasileiros. Seus mais de 260 mil voluntários levam fé e vida, em forma de solidariedade e conhecimentos sobre saúde, nutrição, educação e cidadania para as comunidades mais pobres.
Em 2004, Dra. Zilda recebeu da cnbb outra missão semelhante, fundar, organizar e coordenar a Pastoral da Pessoa Idosa. Atualmente, mais de 129 mil idosos são acompanhados todos os meses por 14 mil voluntários.
Pelo seu trabalho de grande alcance social, ela recebeu reconhecimentos e premiações internacionais.
O método e a pedagogia empregados foram cuidadosamente estudados e testados para a obtenção de bons resultados.
Considero o discurso aos Religiosos e Religiosas no Haiti um Testamento espiritual e, como foi sugerido pelo Sr. Embaixador junto à Santa Sé, Dr. Luiz Felipe de Seixas Corrêa, sua própria oração fúnebre. Ela lembra particularmente: "Nosso objetivo é reduzir a mortalidade infantil e promover o desenvolvimento das crianças até a idade de seis anos. A primeira infância é etapa decisiva para a saúde, a educação, e a consolidação de valores culturais e religiosos". Pode parecer muito simples e ambicioso ao mesmo tempo, mas é importante sonhar com um futuro melhor com ações também simples e reconhecidas cientificamente.
Vale a pena recordar o ensinamento do Papa Bento XVI a esse propósito: "Uma campanha eficaz contra a fome exige, por conseguinte, muito mais do que um simples estudo científico para enfrentar as mudanças climáticas ou para destinar em primeiro lugar a produção agrícola ao uso alimentar. É necessário, antes de tudo, voltar a descobrir o sentido da pessoa humana, na sua dimensão individual e comunitária, a partir do fundamento da vida familiar, manancial de amor e de carinho do qual deriva o sentido da solidariedade e da partilha. Este contexto corresponde à necessidade de construir relacionamentos entre os povos, fundamentados numa constante e autêntica disponibilidade de tornar cada país capaz de satisfazer as necessidades das pessoas carentes, mas também de transmitir a idéia de relacionamentos alicerçados no intercâmbio de conhecimentos recíprocos, de valores, de assistência tempestiva e de respeito.
Trata-se de um compromisso em benefício da promoção de uma justiça social efetiva nos relacionamentos entre os povos, que exige que cada um esteja consciente de que os bens da Criação são destinados a todos e que na comunidade mundial a vida econômica deveria ter em vista a partilha destes bens, o seu uso duradouro e a justa repartição dos benefícios que dela derivam" (Mensagem de Bento XVI ao Diretor da fao por ocasião do Dia Mundial da Alimentação, 2008).

(©L'Osservatore Romano - 20 de fevereiro de 2010)


   

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